Jarid Arraes

jarid arraes

 

Celebrou quem veio antes e hoje recebe honrarias 

Jarid Arraes: Cordel, Cariri, Ancestralidade, Figuras femininas, Inquietações de um corpo negro. 

O ritmo de um repente embala a escrita de Jarid Arraes. Cordel e Xilogravura são as rimas e entalhes de sua ancestralidade recente que ressoa em sua prosa e poesia. Nascida em 12 de fevereiro de 1991 no Cariri, Juazeiro do Norte, Ceará. Autora de setenta cordéis seguindo sua linhagem. Filha e neta de cordelistas e xilogravadores, reacende a tradição, mas demarca protagonismo feminino. Essa posição fica explícita em obras como a releitura “A luta da mulher contra o lobisomem”, na qual muda o gênero da figura central da trama que homenageia, cuja versão original foi escrita por seu avô. 

Em sua região de origem integrou o coletivo Pretas Simoa e fundou o FEMICA, feministas do Cariri. Em 2014 migra para São Paulo e atua na ONG Casa de Lua. No ano seguinte lança “As Lendas de Dandara”, primeira prosa da autora ilustrada por Aline Valek. Une história, lendas e fantasia acerca do famoso quilombo de resistência ao regime escravocrata da época. Atua também como jornalista para diversos veículos, com presença mais assídua na coluna Questão de Gênero, sobre Direitos Humanos, na revista Fórum, em 2016. Além disso, conta com cordéis infantis como “A bailarina gorda” e “A menina que não queria ser princesa”. No mesmo ano, cria o Clube de Escrita para Mulheres, que em 2017 torna-se um coletivo com mais integrantes e escritoras. 

Em 2017 traz à tona “Heroínas Negras Brasileiras em 15 cordéis”, livro adaptado a musical realizado por Thalma Freitas. O ano seguinte marca a gênese de seu primeiro livro de poesia “Um buraco com meu nome” pelo selo “Ferina”, dedicado a publicações femininas com temáticas como solidão, o feio e “as coisas que rasgam”, do qual foi curadora. Seu livro de contos “Redemoinho em dia quente” é premiado e foca nas mulheres de sua terra natal, com ampla faixa etária e posições sociais distintas. Nas temáticas, traz religiosidade, uso de pílulas que fazem viajar, sexualidades dissidentes reveladas em ambientes cristãos, convivência com pessoas em vulnerabilidade social, violência, e reflete até mesmo sobre o tratamento humano perante animais de estimação. Já “Corpo desfeito”, publicação mais recente e romance de estreia, narra os acontecimentos dolorosos que assolam a vida da protagonista Amanda, de 12 anos, que vive sob regras estritas e violentas da avó diante da morte da mãe e preceitos alucinados da senhora que assombra sua existência, mas mesmo assim a menina consegue fazer amizades e experienciar seu primeiro amor. 

Sua escrita prioriza personagens femininas, a lírica é muito presente até mesmo em sua prosa, com descrições breves, mas bem elaboradas com delicadeza de uma observação atenta aos detalhes, mas sem delongas. As primeiras publicações são totalmente voltadas à temática racial, dedicadas à memória e propagação de heroínas negras brasileiras envolvidas na estética literária, pesquisa e informação didática. Sua poesia também demarca o feminino, ressaltando úteros, questionando e ficando sem horizonte frente uma sociedade fálica, traz os questionamentos de um corpo negro, fala sobre colorismo demarcando a si como eu lírica “cor de lágrima quando foge”, é mais incisiva em seus questionamentos e também faz saudações às mais velhas, com um poema dedicado à Beatriz Nascimento. Aborda violência em suas obras, de abuso a maus tratos emocionais, das dores de gênero às feridas do racismo. “Marrom-escuro, Marrom-claro” de seu livro de contos perpassa questões de raça e classe com delicadeza e nitidez. Além da violência que permeia suas obras, como em “Telhado quebrado com gente morando dentro”. Em entrevistas ressalta o caráter político de tudo que vivenciamos. Suas obras desenham, elucidam, essa crença. Desdobrando em sua mimese, e lembrando quem a lê do que assola o real. 
 

Referências: 

ARRAES, Jarid. "Heroínas Negras brasileiras: em 15 cordéis" - São Paulo: Seguinte, 2020.

ARRAES, Jarid. "As lendas de Dandara" - São Paulo: Cultura, 2022.

ARRAES, Jarid. "Redemoinho em dia quente" - Rio de Janeiro: Alfaguara, 2019.

ARRAES, Jarid. "Um buraco com meu nome" - São Paulo: Ferina, 2018.

ARRAES, Jarid. "Corpo desfeito" - Rio de Janeiro: Alfaguara, 2022.

GONÇALVES, Bianca Mafra. "Por uma Herstory de Cordel: Entrevista com Jarid Arraes". Revista Crioula, n.21, 1°semestre/2018 p.497- 508.

Bondelê entrevista Jarid. Disponível em: https://youtu.be/gyhahk0uhW8?si=AINHdMl_zaO11VYa 

https://jaridarraes.com/biografia/

Responsável: Mariana Mendes Silva. Graduanda em Letras - FFLCH/USP.