A Agenda 2030 da ONU e as Bibliotecas da USP

A Agenda 2030, estabelecida pela Organização das Nações Unidas, propõe uma série de compromissos universais em prol do desenvolvimento sustentável, estruturados em 17 Objetivos (ODS) que contemplam dimensões sociais, econômicas e ambientais.

Para entender a Agenda é preciso voltar um pouco no tempo e olhar os ODMs. As metas do milênio foram estabelecidas pela Organização das Nações Unidas (ONU) em 2000, com o apoio de 191 nações, e são os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio (ODMs). Em 2012 foi publicado o documento “O futuro que queremos para todos” na conferência Conferência Rio+20 onde os Estados membros da ONU acordaram estabelecer um grupo de trabalho para desenhar os Objetivos do Desenvolvimento Sustentável como sucessores dos Objetivos do Desenvolvimento do Milênio (ODM). E o que é o Desenvolvimento Sustentável?

É o que atende às necessidades da geração atual sem comprometer a capacidade das gerações futuras de atender suas próprias necessidades. Assim, em 2015, os países tiveram a oportunidade de adotar a nova agenda de desenvolvimento sustentável e chegar a um acordo global sobre a mudança climática.

Frente a esses desafios os 193 estados membros das Nações Unidas junto com um grande número de atores da sociedade civil, o mundo acadêmico e o setor privado, estabeleceram um processo de negociação aberto, democrático e participativo que resultou na proclamação da Agenda 2030 (ODS). A Agenda 2030 tem como elementos as pessoas, o planeta, a prosperidade, a paz e as parcerias.

A Agenda para o Desenvolvimento Sustentável incluiu 17 objetivos (ODS) e 169 metas, apresenta uma visão ambiciosa do desenvolvimento sustentável e integra suas dimensões econômica, social e ambiental. O Brasil incluiu mais um ODS 18 - Igualdade Racial para combater a desigualdade étnico-racial, focando nos desafios que afetam povos indígenas e a população negra. A agenda 2030 é a expressão dos desejos, aspirações e prioridades da comunidade internacional para os próximos anos. Ela coloca a igualdade e dignidade das pessoas no centro e chama a transformar nosso estilo de desenvolvimento, respeitando o meio ambiente.

E o que as bibliotecas têm a ver com isso?

Em 2016 a Federação Internacional de Associações de Bibliotecas (IFLA) por sua sigla em inglês lançou um programa de advocacy internacional por acreditar no potencial das bibliotecas para contribuir com o cumprimento dos ODS. A IFLA acredita que o acesso público à informação permite que as pessoas tomem decisões conscientes que podem melhorar suas vidas.

As bibliotecas são instituições fundamentais para se alcançar esses objetivos. As comunidades que têm acesso à informação relevante e no tempo certo estão melhor posicionadas para erradicar a pobreza e a desigualdade, melhorar a agricultura, proporcionar educação de qualidade e promover a saúde, a cultura, a pesquisa e a inovação. A IFLA convidou os Estados-Membros das Nações Unidas a reconhecer que o acesso à informação e as habilidades para seu uso de forma eficaz, são necessárias para o desenvolvimento sustentável e assegurar que esta é reconhecida na agenda de desenvolvimento pós-2015.

Para evidenciar o valor das bibliotecas, a IFLA publicou a Declaração de Lyon (França, 2014), que afirma como princípio que “o acesso à informação apoia o desenvolvimento e capacita as pessoas — especialmente as marginalizadas e aquelas que vivem em situação de pobreza — a exercer seus direitos civis, políticos, econômicos, sociais e culturais”. Essa declaração foi assinada pelos Estados Membros das Nações Unidas.

O resultado desse movimento de advocacy foi o reconhecimento do acesso à informação no Objetivo 16 dos Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), que busca “promover sociedades pacíficas e inclusivas para o desenvolvimento sustentável, assegurar o acesso à justiça para todos e criar instituições eficazes, responsáveis e inclusivas em todos os níveis”.

Como organização que congrega associações de bibliotecas de todo o mundo, a IFLA convidou a Federação Brasileira de Associações de Bibliotecários, Cientistas da Informação e Instituições (FEBAB) a integrar esse esforço de advocacy, incentivando as bibliotecas brasileiras a atuarem alinhadas à Agenda 2030. Todas as bibliotecas — públicas, escolares, especializadas, comunitárias e acadêmicas — podem contribuir significativamente para o alcance dos ODS.

Em 2018, a Biblioteca Florestan Fernandes (BFF) passou a alinhar suas ações à Agenda 2030, consolidando-se como protagonista no cenário nacional entre as bibliotecas acadêmicas. Embora a Agenda seja indivisível, apresentamos a seguir os projetos da BFF e suas relações com os Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS).

O compromisso da biblioteca com o ODS 4 – Educação de Qualidade manifesta-se na ampla oferta de exposições temáticas, nas ações de mediação cultural voltadas aos acervos físicos e digitais e na disponibilização de recursos informacionais acessíveis. Por meio do projeto Florestan Digital, a biblioteca tem promovido a digitalização de teses, dissertações e produções docentes, com atenção especial à acessibilidade e ao respeito aos direitos autorais, contribuindo também para o ODS 16 (Paz, Justiça e Instituições Eficazes).

A atuação da BFF incorpora ainda o ODS 5 – Igualdade de Gênero, ao acolher e difundir exposições e atividades que valorizam a produção de autoras, pensadoras e intelectuais brasileiras e estrangeiras, em um esforço contínuo de visibilização e valorização da diversidade.

O compromisso com o ODS 10 – Redução das Desigualdades – é evidenciado l tanto na ampliação de acesso à informação quanto na participação em projetos como “Livro Leve e Solto”, que busca democratizar o acesso ao livro em diferentes espaços da unidade.

Durante a pandemia, diante do fechamento dos espaços físicos, a biblioteca identificou a necessidade de acolher e aproximar as pessoas. Assim, criou o “Clube de Leitura: Com Leitura e Com Afeto”, promovendo encontros e trocas em um momento marcado pela incerteza e pela solidão, em consonância com o ODS 3 – Saúde e Bem-Estar.

Nesse mesmo espírito, foi lançado o podcast “Vem Junto 2030”, que recebeu o Selo Educação, reconhecimento concedido às iniciativas de destaque das Instituições de Ensino Superior do Brasil. O podcast aborda temas relacionados a todos os ODS, ampliando o alcance da Agenda 2030 e fortalecendo o papel da biblioteca como espaço de transformação e diálogo.

Além da Biblioteca Florestan Fernandes, outras das bibliotecas da USP também desenvolvem projetos relacionados com a Agenda 2030. A Biblioteca da EACH (Escola de Artes, Ciências e Humanidades) desenvolve iniciativas voltadas ao bem-estar da comunidade, como a Sala Conforto, um espaço dedicado ao acolhimento de pessoas que enfrentam desconfortos físicos ou emocionais, alinhando-se ao ODS 3 – Saúde e Bem-Estar. Em diálogo com os ODS 4 e 11, promove exposições com produções acadêmicas e artísticas de estudantes dos cursos de Design e Têxtil e Moda, fortalecendo a visibilidade de práticas educativas inovadoras e culturais.

Na cidade de São Carlos, as Bibliotecas do campus USP, a Edusp e o Grupo Coordenador de Cultura e Extensão do campus, realizam em conjunto a Festa do Livro da USP São Carlos- FLUSP, evento público voltado à promoção da leitura e da cultura, alinhados com os ODS 4, ODS 10, ao garantir condições de acessibilidade em suas atividades (itens 10.6.7 e 10.6.8).

Também a Biblioteca da Prefeitura do Campus de São Carlos PUSP-SC promove ações de extensão e parcerias que alinhadas aos ODS 4, 10, 13 e 17 permitindo o acesso gratuito a cursos e recursos educacionais para estudantes da rede pública, com foco em competências digitais e científicas como também ações de educação ambiental e conscientização por meio de exposições e atividades em parceria com o LINECIN.

Destaca-se a experiência da Biblioteca do Instituto de Geociências (IGC), que abriga o Espaço GeoFactory Coworking, ambiente aberto 24 horas que articula ensino, pesquisa e extensão, incentivando a formação de jovens talentos e projetos interdisciplinares. Essa iniciativa foi apresentada no SNBU 2023 como uma referência de inovação em bibliotecas universitárias, especialmente por sua capacidade de integrar os ODS 4, 8 e 11 em um espaço colaborativo, inclusivo e voltado à criatividade.

A Biblioteca da Escola Superior de Agricultura “Luiz de Queiroz” (ESALQ) da Universidade de São Paulo (USP) mantém a Série Produtor Rural, que tem como objetivo publicar textos em linguagem acessível voltados a pequenos produtores, abordando temas diversos e oferecendo informações práticas que contribuem para a Extensão Rural. Essa iniciativa está alinhada aos ODS 1 (Erradicação da Pobreza), 2 (Fome Zero e Agricultura Sustentável) e 3 (Saúde e Bem-Estar).

Em 2022, a Agência de Bibliotecas e Coleções Digitais (ABCD) passou a incluir, entre seus objetivos institucionais, o compromisso de estimular o desenvolvimento de atividades alinhadas à Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU) e aos seus 17 Objetivos de Desenvolvimento Sustentável (ODS), com destaque para o movimento do Acesso Aberto. Nesse contexto, a Agência atua colaborando e apoiando a construção de coleções e repositórios digitais.

Com foco no Acesso Aberto, a ABCD mantém o Portal de Livros Abertos e o Portal de Revistas da USP, que disponibilizam informação confiável e de qualidade para toda a sociedade, fortalecendo a Ciência Aberta e contribuindo com praticamente todos os ODS. Esse trabalho foi reconhecido em 2024 com o Selo Social Educação, concedido a iniciativas de relevância social na área educacional.

Ao reunir essas experiências, a exposição “A Agenda 2030 e as Bibliotecas da USP” convida à reflexão sobre o papel transformador das bibliotecas universitárias no enfrentamento dos desafios globais. Como ambientes de preservação da memória, produção de conhecimento e ação cidadã, as bibliotecas da USP demonstram, na prática, que é possível articular tradição e inovação em favor de um futuro mais justo, inclusivo e sustentável, no espírito do princípio que orienta a Agenda: “não deixar ninguém para trás.”